
Quase 40% dos novos casos de câncer em todo o mundo são potencialmente evitáveis. O dado foi publicado em artigo divulgado na terça-feira (3) na revista científica Nature Medicine. A publicação foi feita um dia antes do Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado anualmente em 4 de fevereiro.
Entre os homens de todo o mundo, o tabagismo é o maior fator de risco para o câncer, independentemente de classe social. Em seguida, aparecem as infecções — que ocorrem principalmente em partes da África, Ásia e América do Sul — e, em terceiro lugar, o consumo de álcool.
Segundo a coautora da pesquisa, Hanna Fink, epidemiologista do câncer na Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc), da Organização da Saúde (OMS), em Lyon, na França, as estimativas de prevenção têm se concentrado sobretudo na mortalidade pela doença, e não na ocorrência de casos, e geralmente investigam um único fator de risco.
Para suprir essa lacuna, Hanna e seus colegas examinaram dados globais de casos de 2022 para 36 tipos diferentes de câncer em 185 países e consideraram 30 fatores de risco modificáveis que são causas bem estabelecidas de câncer — como tabagismo, consumo de álcool e infecções.
Os pesquisadores combinaram essas informações com dados de 2012 que registravam a exposição das pessoas a cada fator de risco. A partir desse cruzamento de dados, foi possível estimar a proporção de casos que estavam diretamente ligados a cada fator de risco.
Nas últimas duas décadas, a oncologia deixou de se apoiar apenas nos tratamentos tradicionais, como cirurgia, radioterapia e quimioterapia, e passou a incorporar terapias-alvo, imunoterapia, conjugados anticorpo-droga e estratégias celulares cada vez mais sofisticadas. Apesar disso, esses tratamentos inovadores não são acessíveis à maioria da população.
Ao mesmo tempo em que a medicina avança, a incidência de câncer cresce, impulsionada pelo envelhecimento da população e por fatores ambientais e de estilo de vida. O resultado é uma pressão constante sobre os sistemas público e privado. No Brasil, estudos apontam que o custo direto do tratamento oncológico no SUS, sem incluir ações de prevenção e promoção da saúde, chegou a cerca de R$ 3,9 bilhões em 2022.
Outro ponto crítico é a capacidade do sistema de garantir o cuidado no tempo certo. A lei que assegura o início do primeiro tratamento oncológico no Sistema Único de Saúde (SUS) em até 60 dias após o diagnóstico está em vigor desde 2012. Na prática, no entanto, atrasos ainda ocorrem. Quando isso acontece, a doença pode avançar, o tratamento se torna mais complexo e caro, e as chances de cura diminuem.
"A questão é como fazer com que a inovação não amplie ainda mais o abismo entre quem pode e quem não pode acessar o tratamento”, afirma Clarissa Baldoto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). "Se não houver planejamento e democratização no acesso, corremos o risco de construir uma medicina de excelência para poucos e insuficiente para muitos."
A Lei da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, sacionada em 2023, foi vista como um marco ao estabelecer diretrizes para reduzir incidência, mortalidade e desigualdades, além de organizar a linha de cuidado. Clarissa alerta, no entanto, alertam que a efetividade dependerá de financiamento estável, governança e monitoramento.
A médica orienta a aplicação das tecnologias disponíveis com responsabilidade, com base em custo-efetividade e negociação de preços; o reforço da importância da prevenção e do diagnóstico precoce e a promoção de ações educativas para reduzir estigmas e atrasos na busca por atendimento. Para ela, é fundamental organizar prioridades com base em valor, benefício real e impacto coletivo.
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